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RESOLUÇÕES Seminário UMA ESCOLA PARA
TODOS:
] Nunca, como hoje, se falou tanto de inclusão e de igualdade de oportunidades. Também, nunca como hoje, a inclusão e a igualdade de oportunidades se constituíram ora como argumento, ora como foco das mais diversas decisões e políticas. Mas hoje, como ao longo da história, a inclusão e a igualdade de oportunidades estão longe de ser um dado adquirido, parecendo cavar-se um cada vez maior fosso entre os discursos produzidos e as realidades tal qual se apresentam aos grupos e às pessoas em questão - neste caso, as pessoas com deficiência visual. Ao fim de cerca de três décadas de integração nas escolas regulares de alunos com deficiência visual, desapareceram - quase totalmente - as escolas especiais para estes alunos. Nesta medida, a escola inclusiva parece uma conquista irreversível para os alunos cegos e amblíopes. Todavia, avolumam-se as expressões de descontentamento - às vezes traduzidas em discursos comparativos do ensino segregado com o ensino integrado, com o primeiro a levar sérias vantagens sobre o segundo, ao menos do ponto de vista do desenvolvimento de competências de autonomia funcional; outras vezes, reflectindo-se em discursos de descrença quanto a uma efectiva igualdade de oportunidades ou, pelo menos, de séria falta de confiança na possibilidade de a escola preparar os alunos cegos e amblíopes para os desafios que, como adultos, a sociedade lhes irá colocar. Considera-se que uma escola inclusiva implica o reconhecimento das necessidades individuais e grupais e a mobilização das correspondentes respostas ou soluções específicas e especializadas. Ao mesmo tempo, implica que essas mesmas respostas ou soluções específicas e especializadas sejam tomadas como subsidiárias, devendo ser mobilizadas apenas e na justa medida em que as intervenções definidas para a comunidade discente em geral sejam insuficientes ou inapropriadas. Ora, o descontentamento sentido representa, pelo menos, uma séria desconfiança quanto a este potencial integrador de “Uma Escola Para Todos”. Apesar de tudo, considera-se que a escola inclusiva é o caminho a seguir e que, neste ponto, não deve haver lugar a retrocessos. Mas, para que este caminho se torne efectivo - ou seja, para que a escola inclusiva se torne uma realidade objectiva -, impõem-se mudanças - de atitudes, de práticas, de políticas... E a partilha destes sentimentos e destas dúvidas por professores, alunos e famílias, se outra consequência não tivesse, seria justificativa mais do que suficiente para a criação deste espaço de reflexão e de debate agora concretizado com este Seminário. Em seguida, sistematizam-se as principais considerações – conclusões
e/ou recomendações que emergem das comunicações e dos debates
produzidos: 1. Produção e adaptação de material didáctico para alunos com deficiência visual: 1.1. Os serviços responsáveis pela produção e adaptação de material didáctico estão sujeitos, anualmente e sistematicamente, a um esforço de resposta que se afigura sobredimensionado, levando a manifestas dificuldades em corresponder eficazmente às necessidades. Sem prejuízo para a livre concorrência no mercado dos livros escolares, nem para a autonomia das escolas, devem encontrar-se soluções que, por um lado, permitam optimizar o esforço de realização daqueles serviços e, por outro, assegurem que os alunos com deficiência visual disponham dos respectivos livros adequadamente e em suporte acessível em tempo útil. Assim, recomenda-se:
1.2. Com o desenvolvimento tecnológico a que hoje se assiste, surgem novas possibilidades na produção e adaptação de material didáctico para os alunos com deficiência visual. Essas novas possibilidades começaram já a ser experimentadas no nosso país, tanto ao nível dos processos, como no que respeita às formas de apresentação dos materiais; este facto revela-se bastante positivo, essencialmente pelo aumento na capacidade e rapidez de resposta bem como, em alguns casos, pelas maiores facilidades e potencialidades de manuseamento dos materiais por parte dos utilizadores. Importa, entretanto, tirar proveito destas soluções para colmatar lacunas a outros níveis bem como acautelar alguns inconvenientes decorrentes de uma eventual priorização de critérios de racionalização em desfavor dos aspectos pedagógicos, recomendando-se designadamente:
2. Desenvolvimento curricular: A Escola Inclusiva não se esgota na realização da integração como um facto, mais ou menos situado no espaço e no tempo. Enquanto “palco” de integração - com tudo o que isso possa implicar ao nível das condições físicas, materiais, técnicas, pedagógicas e humanas -, a Escola Inclusiva é também um instrumento inserido numa cadeia de processos necessários à potenciação da integração fora e para além do contexto escolar. Nessa medida, o modo como se opera o desenvolvimento curricular é determinante e tem suscitado sérias preocupações por não atender cabalmente a este propósito, seja pelo enquadramento legal, seja pelas opções técnico-pedagógicas no terreno, seja ainda pela insuficiência de respostas. 2.1 A deficiência visual implica, desde logo, que o aluno necessite de adquirir e desenvolver um conjunto de competências funcionais específicas visando, por um lado, a sua autonomia e, por outro lado, a viabilização do próprio percurso escolar no que à relação ensino-aprendizagem diz respeito. Entretanto, e não obstante as acções (sobretudo de iniciativa privada) que vêm sendo empreendidas em matéria de intervenção precoce, a percepção destas necessidades educativas não pode ser desenquadrada de toda uma envolvente sociofamiliar – mais ou menos característica de cada aluno -, acrescendo, não raras vezes, insuficiências quantitativas e qualitativas ao nível de experiências de desenvolvimento psicossocial e da aquisição de competências sociais, que a escola, enquanto “palco” de socialização, também não poderá ignorar. Considera-se, assim, imprescindível que o Sistema Educativo:
2.2. Perspectivada como processo e como potencial, a integração traduz-se na efectividade de um movimento de esbatimento – ou de des-significação objectiva - de factores propícios à discriminação ou à segregação. Neste contexto, é fundamental que as pessoas com deficiência visual estejam, elas próprias, capacitadas para responder às exigências da integração em si mesma. Importa, pois, que a escola, enquanto palco privilegiado de educação dos futuros adultos, não descure este propósito na escolarização dos alunos cegos e amblíopes. Assim, respeitando as necessidades, potencialidades e interesses individuais, recomenda-se a observação designadamente dos seguintes critérios na definição das opções curriculares:
O braille é o sistema de leitura e de escrita natural para as pessoas cegas e para muitas pessoas com baixa visão, sendo o único meio de acesso e de registo de informação equiparável àquele usado pelas pessoas sem deficiência visual (escrita em tinta), designadamente do ponto de vista do potencial estruturante a nível perceptivo-cognitivo e psicolinguístico. De notar que, existindo outras formas de acesso, registo e tratamento de informação passíveis de serem usadas por pessoas cegas, apenas o braille permite a realização da leitura e da escrita, com tudo o que tal implica a nível perceptivo-motor e cognitivo. O domínio do sistema braille constitui, nessa medida, uma alavanca determinante do desenvolvimento cognitivo e linguístico da criança e de todo o seu potencial de integração escolar, profissional e social. Contudo, observa-se ao longo dos últimos anos uma preocupante diminuição no domínio e uso do braille por parte dos alunos que dele deveriam beneficiar. Impondo-se uma inversão urgente desta tendência, torna-se necessário:
Existe hoje um desenvolvimento tecnológico assinalável, cujos impactos se podem fazer sentir de forma absolutamente transversal nas mais diversas esferas da vida de cada um e da sociedade em geral. Toda esta evolução tecnológica tem como palco uma cultura, não só de aceitação, como de convicção quanto aos seus benefícios. Entretanto, esta é uma realidade que, por um lado, carece de uma maior exploração das suas potencialidades em favor de soluções que promovam a inclusão e, por outro, justifica um sério investimento para que dela não decorram novas formas de exclusão. Situando este enfoque no contexto da escolarização dos cegos e dos amblíopes, recomenda-se:
A criação de Escolas de Referência para a deficiência visual afigura-se como uma medida que pode vir a reverter bastantes benefícios para estes alunos. Em primeiro lugar, porque ela se traduz numa concentração de recursos humanos e de meios materiais que, assim, podem mais facilmente ser optimizados, coordenados e mobilizados de forma adequada às necessidades. Em segundo lugar, porque esta solução pode também favorecer o desenvolvimento psicossocial do aluno com deficiência visual, na medida em que ela permite tirar partido da interacção entre pares com vivências e necessidades comuns. Entretanto, apesar destas virtualidades, reconhece-se que esta é uma medida que corre o risco de colocar em causa, na sua prática, aquilo que são as expectativas legítimas de uma Escola Inclusiva. Assim, recomenda-se que na implementação desta solução se acautele:
As necessidades de apoio à escolarização dos alunos com deficiência visual e à sua integração em meio escolar regular bem sucedidas são diversas, maioritariamente específicas e especializadas. A satisfação de tais necessidades implica a intervenção de recursos humanos devidamente habilitados com conhecimentos e competências específicas na área da deficiência visual que os capacitem, não só para uma adequada intervenção técnico-pedagógica, como para uma salutar convivência com a pessoa com deficiência. 6.1 Todavia, são vários os motivos de preocupação a este nível, constatando-se várias insuficiências que concorrem para uma desqualificação do apoio prestado aos alunos com deficiência visual, constituindo especial motivo de preocupação, designadamente:
7. Formação dos professores do ensino regular: O ensino integrado implica que estejam reunidas as condições necessárias para uma eficaz relação de ensino/aprendizagem entre o aluno com deficiência visual e cada um dos professores regulares com quem ele interage. Se o apoio que os professores de educação especial possam dispensar a essa relação (binómio professor/aluno) assume um papel determinante, importa não negligenciar a imprescindibilidade de que o professor do ensino regular esteja, também ele, dotado de alguns recursos que lhe permitam lidar com a situação “em palco”. Assim, recomenda-se: - Que seja obrigatória a integração de conteúdos curriculares mínimos Textos didácticos na formação pedagógica de base dos professores; - Que sejam criados incentivos ao aparecimento de oferta formativa e à frequência, por parte dos professores do ensino regular, de acções de formação contínua de professores que possibilitem a aquisição de conhecimentos e de competências pedagógicas facilitadoras do ensino de alunos com deficiência visual.
8. Transição para o mundo do trabalho:
9. Intervenção Precoce na Deficiência Visual: Na criança com deficiência visual (DV), a aprendizagem por imitação, através de observação e de experimentação do ambiente, fica comprometida. No entanto, é fundamental assumir, no contexto educativo, o princípio de que todas as crianças têm um enorme potencial de aprendizagem que há que descobrir e desenvolver de forma contínua, para o que importa fazer uso de métodos de avaliação e de programas de estimulação elaborados de acordo com as suas necessidades. Com efeito, o desenvolvimento científico e a intervenção levada a cabo mostram que a capacidade das crianças com DV pode ser, em muitos casos, desenvolvida através de um processo de intervenção que englobe uma avaliação criteriosa, uma estimulação sensorial adequada, um treino da visão (no caso das crianças com baixa visão), apoio ao nível da orientação e mobilidade e das actividades de vida diária (AVD) e uma iniciação ao braille (no caso específico das crianças com cegueira ou com baixos resíduos visuais que impossibilitem a leitura a negro). Uma intervenção adequada - que possa ser fundamentada em saberes provenientes de várias áreas disciplinares, e desenvolver-se em múltiplos eixos e de forma integradora ou global -, por um lado e, por outro, o mais precocemente possível, será, pois, um factor determinante no desenvolvimento destas crianças. Reputa-se, pois, de especial importância neste campo:
10. Mudança na educação especial e aspectos socioculturais: Importa que a efectivação de Uma Escola para Todos – com tudo o que possa encerrar de utopia – seja tomada como uma meta realizável. Neste contexto, compreende-se que existem, para lá das opções políticas e técnico-pedagógicas, factores de ordem cultural que condicionam as práticas educativas e a acção política. Importa, assim, reconhecer esses factores e valorizá-los como uma alavanca fundamental das transformações equacionadas ao longo de todo o seminário. Assim, considera-se que:
A
Comissão de Resoluções do Seminário |
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